Da Conceição não tinha pressa, não era cardíaco nem epiléptico, gostava de palavra cruzada e só acompanhava o futebol pelo rádio, achava que a TV tirava toda a graça da expectativa de ser levado à decepção ou à glória futebolística. Desde pequeno colecionava radinhos, tinha perdido a conta da quantidade de aparellhos que adquiriu em 51 anos de vida. Os Philips eram levados embora após inúteis tentativas de ressuscitação pelo amigo de infância e recolhedor de pertences rejeitados, Manoel "Manel" Calú Sobrinho.
Da Conceição escolheu ser motorista de ônibus. Adquiriu, em 25 anos de profissão, dores osteomusculares insuportáveis, fato que o que o faria sonhar, precocemente, com o dia de sua aposentadoria. Sabia que seriam dias de semi penúria, mas estava resignado. Já presenciou muitos afastamentos de colegas que manifestaram comportamentos esquizofrênicos, revelando quão verdade é quando se diz que, às vezes, o trabalho assume o sujeito. A tensão dos trajetos, a violência, longas horas de engarrafamento, angústia, pressão para se cumprir escalas, todos esses fatores se personificavam e levavam ao afastamento do profissional. O que vinha em seguida, o substituto, era também condenado na roleta russa das possibilidades: forte candidato a ser parasitado por todo o caos do trânsito. Os que tinham dieta desregulada enfartavam a todo instante, Da Conceição era cauteloso com isso, ciente do imenso risco de sofrer um infarto como o Juarez Bigode, que estava dirigindo quando soltou o volante para conter a dor imensa que lhe fisgou à esquerda do peito. O ônibus se chocou contra um poste e o Bigode morreu instantaneamente, não de infarto, mas de politraumatismo. Da Conceição evitava frituras, embutidos, sal em excesso, vestia o mesmo número no uniforme mesmo depois de um quarto de século de serviço. As dores nas costas, porém, torturavam o homem todos os dias, fazendo-o odiar, secretamente, a profissão que escolhera. Ainda assim, era um resignado, um sensato, como dizia a sogra. Se o adjetivo partisse de sua própria mãe, diria que o comentário estaria permeado de suspeitas: se a sogra afirmava que ele era um bom homem e a irmã solteirona dela concordava prontamente, era porque ele deveria ser mesmo um santo.
Ainda assim, todo santo tem um ponto fraco. Da Conceição tinha um, desde a tenra infância, escondido por um cinismo diplomático natural: MULHERES. De todo tipo, diferentes idades, estava sempre atento e apreciando intimamente a beleza daquelas que cruzavam seu caminho, ou melhor, que eram conduzidas por ele no ônibus. Aos quinze foi apaixonado por uma vizinha três casas à direita. Juliane ia pra escola cedo, vestida de saia azul marinho, meias brancas e sapatos polidos, os botões da camisa branca contendo a volúpia e uma medalha do sagrado coração de maria no pescoço. Tinha pernas firmes e morenas e Da Conceição, que na época atendia por Bolota, em face de sua passageira protuberância abdominal, fingia estar varrendo o quintal só para ver a garota um ano e dois meses mais velha passar. Ela deixava o rastro do banho recém tomado por onde passava e assim que o cheiro se transformava em sangue desgovernado, irrigando o sul das partes, Bolota da Conceição sumia das vistas de todos. Seu esconderijo era o banheiro do quarto dos fundos, onde somente se tinha movimentação em caso de faxina ou se o pai estivesse trabalhando em casa. E isso era cada vez mais raro: depois que arrumou uma amante, o pai do Bolota jamais resolvia assuntos de trabalho em sua própria casa, tudo era desculpa para que saísse apressado e sem hora para retornar.
O platonismo suburbano se encerrou três anos depois, quando Juliane se mudou para a Glória. Bolota chorou por dentro, pior do que chorar por fora. Teve febre intensa por cinco dias inteiros e quase entrou em convulsão. Temia nunca mais ver os cachos da vizinha, morria só de pensar nos picolés aguados que não seriam mordidos, nos passeios de verão abortados sem avisar. Todas as vezes que passou por perto da vizinhança da outra, buscava uma Juliane que talvez nem existisse mais. Nem sabia que profissão ela poderia ter escolhido ou quem poderia ser seu eleito, definido pelo próprio Da Conceição como um sortudo desgraçado. Ainda assim, nem Neide - oficial esposa do motorista - nem ninguém tinha conhecimento da doença apaixonada. O homem até evitava se exceder no álcool e só bicava os chopps tímidos que pedia no restaurante, todo mundo sabe que a bebida revela pro mundo aquilo que muitos escondem a sete ou mais chaves. Da Conceição foi dispensado do serviço militar e, depois de quatro anos trabalhando no comércio, decidiu aceitar o convite de um primo a trabalhar na Viação Expressus.
Jailson, que trabalhava no setor administrativo, garantiu que havia uma vaga para motorista na linha que passava pela Glória, o que acendeu a possibilidade remota de, quem sabe, rever Juliane. Obviamente havia também outras opções, mas Da Conceição enxergou o acaso como algo proposital, nem deu atenção ao resto das opções. Era uma vantagem ter um parente de segundo grau altamente confiável, que veio presenteá-lo com a oportunidade de revanche platônica. Não foi difícil conseguir o emprego: em uma semana e meia já estava realizando o exame admissional. Ensaiou diante da porta do armário com espelho meio-corpo uma suposta fisionomia de surpresa e indiferença. Pigarreava, passava as mãos pelas têmporas ajeitando o cabelo fino e oleoso. Conferia sua ótima forma e verificava o sorriso, caso precisasse dele. E se precisasse? Diabos, só de pensar em algo tão trivial já ficava taquicardíaco.
Contudo, os anos nunca mostraram Juliane para ele, era difícil manter a atenção disfarçada de desejo e este era manifestado nos sinais vermelhos, quando olhar para o lado não implicava, diretamente, num risco para si, para os transeuntes e para os passageiros.Vinte e cinco anos de profissão aniversariados e nada. Acostumou-se ao ofício sem deixar a doença de lado: por precaução, mantinha-se atento.
O segredo de Da Conceição veio à tona numa quinta-feira de manhã, na segunda quinzena de dezembro, quando o asfalto vira brasa e o ar condicionado do carro se mostra ineficiente. O trânsito lento da avenida principal permite que o motorista vislumbre a movimentação humana, ambulantes, crianças, empregadas e cachorros de rua. A pretensão inconsciente se transforma em carne: uma colegial morena de bola de chiclete obscena pendurada na boca, com os olhos quase fechados e ofuscados pelo sol intenso, parada ao lado do orelhão. É este o primeiro segundo da humanidade em que o sujeito torce para ficar engarrafado ali para sempre, torcendo para que o trânsito jamais flua! A menina parece examinar a si mesma, como se soubesse que estava sendo admirada à distância. Da Conceição, naquele instante, sentia-se na Glória. Quer dizer então… Que Juliane ainda era uma menina de dezesseis anos? Ignorou a cronologia e o maxilar despencava lentamente.
Ao olhar para a ponta dos pés, ela percebe que um dos sapatos está desamarrado. Abaixa-se para fazer o laço e com o corpo dela também abaixa a pressão arterial do Da Conceição, liquefeito em seu assento de couro. Nesse exato momento, o motorista toma consciência de que precisa prosseguir com o carro, já com buzinas irritadas irritando por detrás. Ele prossegue com o pescoço indeciso, involuntário, querendo saber qual seria o próximo movimento que ela faria. Suado e prestes a perder os sentidos, não percebe que deixara de dirigir e sobe em cima da calçada, matando uma jovem grávida de cinco meses e ferindo um rapaz que estava passando pelo local. Desperta para a tragédia poucos segundos depois, desce do carro com a testa sangrando para constatar morte, sangue e culpa. Senta na calçada e chora, assistido por passageiros, passantes, camelôs. Um passageiro mais ágil já ligava para uma ambulância enquanto o motorista pedia que chamassem a polícia. O trocador, solícito e choroso, pedia calma e tentava abraçar o colega de profissão, consolando um acidente que, para Da Conceição, tinha sido totalmente proposital.
Naquele dia, Da Conceição sentiu o bolso da consciência pesar. Sabia que o fato implicaria em indenizações à família da gestante e do rapaz, haveria gastos em reparos etc.Tudo isso ele conseguia calcular, esquecido de si próprio, com o ponto fraco exposto da pior maneira possível. Uma semana depois, enlouqueceu com a coincidência amarga da visão - ele então duvida que a colegial tenha existido e supõe que a tenha imaginado - após longas horas de negociação da empresa com a família da jovem falecida, Mirela de Oliveira, filha de Juliane e Maurício de Oliveira.
Reencontrou, finalmente, sua ex-vizinha e pôde saber quem era e o que fazia o sortudo desgraçado.