Sem título e sem vida

 

Mesmo que não me perguntem,

Ainda que não saibam o que penso,

Assim que reseto o dia pelas pálpebras

Sinto as mãos dormentes prestes a virarem luvas

E o coração de chapisco

Por onde você sobe e desce todo dia,

Até que não tenha mais joelhos.

 

 

Sempre me engano.

Sempre nutri simpatia extra por tardes de sábado. Acho que maior parte da minha vida nada fiz senão esperar por elas.

Sempre gostei de comentar o efeito atmosférico (por dentro da gente) dos feriados  em plena quarta-feira ou terça, quando descobrimos o poder que os dias da semana exercem sobre nós, especialmente na infância: excesso de pessoas, cores, cheiro de comida ou amendoim queimado na rua, crianças soltas e balões presos, ambulantes e fila para comprar tickets para andar nos brinquedos enferrujados. Meus avós sempre me levavam ao parque aos sábados à tarde, enquanto meus pais ainda precisavam trabalhar nesse dia mais sagrado que domingo. Eu sempre passava a noite com meus avós. Melhor do que a tarde era o início da noite, jantávamos antes das oito e eu dormia no sofá, com a Tv ligada e o pote de biscoito aberto. Eles não me acordavam para escovar os dentes e eu achava isso a maior liberdade do mundo.

Com o passar dos anos, todo o sacrifício dos meus pais renderam frutos e comecei a sair mais com eles: acampávamos em M., viajávamos quase todo final de semana, logo descobri que meu pai tinha parado de fumar no dia em que jogou futebol comigo.Tinha eu  dez anos. Aos domingos, íamos à casa dos meus avós para o farto e demorado almoço e eu ficava até à noite matando a saudade daquele quintal e dos meus melhores amigos. Sempre achei que os pais do meu pai eram as pessoas mais formidáveis que eu já conheci na vida. Ironicamente, minha mãe perdeu o pai aos sete e a mãe aos 15, muito antes de sonhar em se casar. Meus avós sempre foram um tesouro que aproveitei o máximo que pude.

 

Quando meu avô se foi eu estava na escola, exatamente no ano em que prestaria vestibular. Achei que nunca iria me acostumar com a ideia de não tê-lo por perto. Decidi, apoiado pelos meus pais, a convocar vovó para morar conosco. Obviamente, ela se recusou a sair de onde morava há 48 anos, ainda que a lacuna do cônjuge  recém falecido fosse imensurável.  Achei que seria mais sensato morar com ela e me mudei duas semanas depois: deixei meus pais órfãos de mim, já com quase 17 anos. Minha primeira noite foi como sempre, exceto pelo jantar. Trocamos o menu tradicional - arroz, feijão, alguma carne e mais alguma coisa pra acompanhar - por pizza pedida por telefone. Minha avó conversou bastante comigo e não deixava o silêncio durar por muito tempo. Filmes, eu quando era pequeno (seu tópico predileto), viagens, meu pai quando era pequeno. Sempre fui fascinado por sua variedade de histórias, ela se lembra de tudo, com detalhes de cheiro e acontecimentos históricos. E me condoía por cogitar que ela sofresse. Queria ser atingido por qualquer sinal de tristeza que pudesse chegar até ela: o neto que sofra! Os avós, nunca. E eles pensavam o inverso e isso sempre foi e é tão descarado! Não à toa, dizia a placa na porta da cozinha: "Se a mamãe disser não, peça à vovó!"

Depois de experimentar todas as posições possíveis e dobrar o travesseiro de todas as maneiras, não consegui pregar os olhos. Pensei, pela primeira vez, na minha vez. E quando eu for pai? Continuidade de promessas, fins idênticos: pai, avô, cadáver. Senti enjôo.

Levantei para pegar um copo de água gelada e fiquei surpreso ao constatar que minha avó também estava insone. Sentada na poltrona de couro do meu avô, segurava alguma coisa na mão e seus olhos estavam cerrados, com espasmos regulares. Aproximei-me e falei, em tom quase inaudível, se estava tudo bem. Ela, sem abrir os olhos, me fez a clássica pergunta: Formigueiro na sua cama? Sentei-me no chão com as pernas cruzadas e não precisei perguntar o que ela segurava; me estendeu a mãozinha e fiquei sabendo: uma antiga fotografia que trazia ela tão jovem e meu avô de bigode pretíssimo. Era a adaptação una para o meu pai e eu, é incrível como algumas pessoas continuam as mesmas em outros. Já posso me imaginar mais velho, foi isso que veio à mente. Minha avó era outra, os lábios finos e o queixo de cabra, os olhos de vitrais azuis, sobrancelhas escuras em forma de travessão, fazendo uma discreta ponta virada para baixo. Admiráveis. No verso: Aurora & Eulálio, Páscoa /1937. "O Governo Constitucional, né?", comentei. Nunca fui bom em História, por um acaso um dia antes tive uma aula sobre o assunto. Gravei apenas os números, porque deles sou mais próximo. Foi uma coincidência estranhíssima, sempre fico empacado e olhando para o teto quando me perguntam sobre assuntos históricos ou língua portuguesa. Ela me interrompe o remorso da falsa sabedoria:

Seu avô estragou essa foto.

De fato, havia uma falha imensa em cima do colo dela, dando a impressão de que a blusa de linho branco tinha virado vapor. Pensei no meu avô, tão desastrado, derrubando algo ou guardando de maneira imprópria. Pensei em alguma briga do passado, talvez ele tenha tentado sumir com a minha avó da foto,  como quem quer esquecer um amor à força. Supus por um momento que tinha sido um descanso de copo em algum ano novo alcoolizado. Antes que eu pudesse perguntar como ele tinha provocado aquilo, ela se adianta: Quando viajava a trabalho, levava a foto com ele. Ficava com tanta saudade que beijava a foto com força. Seu pai, engraçado, nem deve saber disso. Aí, a foto ficou assim…

Antes que ela pudesse chorar, propus o tradicional sorvete de creme com coca-cola das madrugadas insones, um segredo nosso há  anos. Aliás, nessa noite percebi que meu engano - a cada hipótese que levantei - era mais um segredo.

Mudou de nome e nunca mais foi chamado.

 Madrugada fertilizada in vitro, a temperatura baixíssima está favorável à manutenção da minha insônia.

Ouço um ar condicionado ronronar, não posso crer que ainda não estejam satisfeitos com o frio.

 

Abbey Road, track 15 ou tão somente: “Boy, you’re gonna carry that weight, carry that weight, for long time”

Da Conceição não tinha pressa, não era cardíaco nem epiléptico, gostava de palavra cruzada e só acompanhava o futebol pelo rádio, achava que a TV tirava toda a graça da expectativa de ser levado à decepção ou à glória futebolística. Desde pequeno colecionava radinhos, tinha perdido a conta da quantidade de aparellhos que adquiriu em 51 anos de vida. Os Philips eram levados embora após inúteis tentativas de ressuscitação pelo amigo de infância e  recolhedor de pertences rejeitados,  Manoel "Manel" Calú Sobrinho.
Da Conceição escolheu ser motorista de ônibus. Adquiriu, em 25 anos de profissão, dores osteomusculares insuportáveis, fato que  o que o faria sonhar, precocemente, com o dia de sua aposentadoria. Sabia que seriam dias de semi penúria, mas estava resignado. Já presenciou muitos afastamentos de colegas que manifestaram comportamentos esquizofrênicos, revelando quão verdade é quando se diz que, às vezes, o trabalho assume o sujeito. A tensão dos trajetos, a violência, longas horas de engarrafamento, angústia, pressão para se cumprir escalas, todos esses fatores se personificavam e levavam ao afastamento do profissional. O que vinha em seguida, o substituto, era também condenado na roleta russa das possibilidades: forte candidato a ser parasitado por todo o caos do trânsito. Os que tinham dieta desregulada enfartavam a todo instante, Da Conceição era cauteloso com isso, ciente do imenso risco de sofrer um infarto como o Juarez Bigode, que estava dirigindo quando soltou o volante para conter a dor imensa que lhe fisgou à esquerda do peito. O ônibus se chocou contra um poste e o Bigode morreu instantaneamente, não de infarto, mas de politraumatismo. Da Conceição evitava frituras, embutidos, sal em excesso, vestia o mesmo número no uniforme mesmo depois de um quarto de século de serviço. As dores nas costas, porém, torturavam o homem todos os dias, fazendo-o odiar, secretamente, a profissão que escolhera. Ainda assim, era um resignado, um sensato, como dizia a sogra. Se o adjetivo partisse de sua própria mãe, diria que o comentário estaria permeado de suspeitas: se a sogra afirmava que ele era um bom homem e a irmã solteirona dela concordava prontamente, era porque ele deveria ser mesmo um santo.
Ainda assim, todo santo tem um ponto fraco. Da Conceição tinha um, desde a tenra infância, escondido por um cinismo diplomático natural: MULHERES. De todo tipo, diferentes idades, estava sempre atento e apreciando intimamente a beleza daquelas que cruzavam seu caminho, ou melhor, que eram conduzidas por ele no ônibus. Aos quinze foi apaixonado por uma vizinha três casas à direita. Juliane ia pra escola cedo, vestida de saia azul marinho, meias brancas e sapatos polidos, os botões da camisa branca contendo a volúpia e uma medalha do sagrado coração de maria no pescoço.  Tinha pernas firmes e morenas e Da Conceição, que na época atendia por Bolota, em face de sua passageira protuberância abdominal, fingia estar varrendo o quintal só para ver a garota um ano e dois meses mais velha passar. Ela deixava o rastro do banho recém tomado por onde passava e assim que o cheiro se transformava em sangue desgovernado, irrigando o sul das partes, Bolota da Conceição sumia das vistas de todos. Seu esconderijo era o banheiro do quarto dos fundos, onde somente se tinha movimentação em caso de faxina ou se o pai estivesse trabalhando em casa. E isso era cada vez mais raro: depois que arrumou uma amante, o pai do Bolota jamais resolvia assuntos de trabalho em sua própria casa, tudo era desculpa para que saísse apressado e sem hora para retornar.
 
O platonismo suburbano se encerrou três anos depois, quando Juliane se mudou para a Glória. Bolota chorou por dentro, pior do que chorar por fora. Teve febre intensa por cinco dias inteiros e quase entrou em convulsão. Temia nunca mais ver os cachos da vizinha,  morria só de pensar nos picolés aguados que não seriam mordidos, nos passeios de verão abortados sem avisar. Todas as vezes que passou por perto da vizinhança da outra, buscava uma Juliane que talvez nem existisse mais. Nem sabia que profissão ela poderia ter escolhido ou quem poderia ser seu eleito, definido pelo próprio Da Conceição como um sortudo desgraçado. Ainda assim, nem Neide - oficial esposa do motorista - nem ninguém tinha conhecimento da doença apaixonada. O homem até evitava se exceder no álcool e só bicava os chopps tímidos que pedia no restaurante, todo mundo sabe que a bebida revela pro mundo aquilo que muitos escondem a sete ou mais chaves. Da Conceição foi dispensado do serviço militar e, depois de quatro anos trabalhando no comércio, decidiu aceitar o convite de um primo a trabalhar na Viação Expressus. 
Jailson, que trabalhava no setor administrativo, garantiu que havia uma vaga para motorista na linha que passava pela Glória, o que acendeu a possibilidade remota de, quem sabe, rever Juliane. Obviamente havia também outras opções, mas Da Conceição enxergou o acaso como algo proposital, nem deu atenção ao resto das opções. Era uma vantagem ter um parente de segundo grau altamente confiável, que veio presenteá-lo com a oportunidade de revanche platônica. Não foi difícil conseguir o emprego: em uma semana e meia já estava realizando o exame admissional. Ensaiou diante da porta do armário com espelho meio-corpo uma suposta fisionomia de surpresa e indiferença. Pigarreava, passava as mãos pelas têmporas ajeitando o cabelo fino e oleoso. Conferia sua ótima forma e verificava o sorriso, caso precisasse dele. E se precisasse? Diabos, só de pensar em algo tão trivial já ficava taquicardíaco.
Contudo, os anos nunca mostraram Juliane para ele, era difícil manter a atenção disfarçada de desejo e este era manifestado nos sinais vermelhos, quando olhar para o lado não implicava, diretamente, num risco para si, para os transeuntes e para os passageiros.Vinte e cinco anos de profissão aniversariados e nada. Acostumou-se ao ofício sem deixar a doença de lado: por precaução, mantinha-se atento.
O segredo de Da Conceição veio à tona numa quinta-feira de manhã, na segunda quinzena de dezembro, quando o asfalto vira brasa e o ar condicionado do carro se mostra ineficiente. O trânsito lento da avenida principal permite que o motorista vislumbre a movimentação humana, ambulantes, crianças, empregadas e cachorros de rua. A pretensão inconsciente se transforma em carne: uma colegial morena de bola de chiclete obscena pendurada na boca, com os olhos quase fechados e ofuscados pelo sol intenso, parada ao lado do orelhão. É este o primeiro segundo da humanidade em que o sujeito torce para ficar engarrafado ali para sempre, torcendo para que o trânsito jamais flua! A menina parece examinar a si mesma, como se soubesse que estava sendo admirada à distância. Da Conceição, naquele instante, sentia-se na Glória. Quer dizer então… Que Juliane ainda era uma menina de dezesseis anos? Ignorou a cronologia e o maxilar despencava lentamente.
Ao olhar para a ponta dos pés, ela percebe que um dos sapatos está desamarrado. Abaixa-se para fazer o laço e com o corpo dela também abaixa a pressão arterial do Da Conceição, liquefeito em seu assento  de couro. Nesse exato momento, o motorista toma consciência de que precisa prosseguir com o carro, já com buzinas irritadas irritando por detrás. Ele prossegue com o pescoço indeciso, involuntário, querendo saber qual seria o próximo movimento que ela faria. Suado e prestes a perder os sentidos, não percebe que deixara de dirigir e sobe em cima da calçada, matando uma jovem grávida de cinco meses e ferindo um rapaz que estava passando pelo local. Desperta para a  tragédia poucos segundos depois, desce do carro com a testa sangrando para constatar morte, sangue e culpa. Senta na calçada e chora, assistido por passageiros, passantes, camelôs. Um passageiro mais ágil já ligava para uma ambulância enquanto o motorista pedia que chamassem a polícia. O trocador, solícito e choroso, pedia calma e tentava abraçar o colega de profissão, consolando um acidente que, para Da Conceição, tinha sido totalmente proposital.
Naquele dia, Da Conceição sentiu o bolso da consciência pesar. Sabia que o fato implicaria em indenizações à família da gestante e do rapaz, haveria gastos em reparos etc.Tudo isso ele conseguia calcular, esquecido de si próprio, com o ponto fraco exposto da pior maneira possível. Uma semana depois, enlouqueceu com a coincidência amarga da visão - ele então duvida que a colegial tenha existido e supõe que a tenha imaginado - após longas horas de negociação da empresa com a família da jovem falecida, Mirela de Oliveira, filha de Juliane e Maurício de Oliveira.
Reencontrou,  finalmente, sua ex-vizinha e pôde saber quem era e o que fazia o sortudo desgraçado.

Híbrida.

O cheiro do outro era familiar, acre, suado, androstadienone. Compreendi que meu gênero poderia ser feminino. O fato de ser tão íntimo e facilmente reconhecível me deixou enfraquecida, tombei de lado suavamente no chão de folhas e terra e com apenas um olho reconheci a minha companhia. O companheiro de travesseiro teria atravessado até mim ou eu que corri até seu encontro? Despertei para uma preocupação que até então não havia me ocorrido: parte do que compreendia como meu corpo foi possuído por características não humanas. Não havia luz o suficiente para que pudesse analisar a transformação, mas sentia os membros inferiores semelhantes aos de um cavalo, a audição e e o olfato de um lobo e o resto…parecia bem humano. Estava ali  a grande Chance de me reconhecer através do outro, verificar minha aparência a partir dele, a depender da maneira comoele se apresentasse fisicamente.  Consegui realocar meus braços humanos e me apoiei de frente pra ele, confiando em todos os sentidos, menos na visão. Não fui capaz de ficar sem ela por muito tempo.
A máquina dos olhos consegue identificar barba, orelhas bem-feitas, todo um legado de beleza anterior à situação. Muito familiar. O outro era um homem, talvez o único que posso considerar responsável pela corrida de alvo certo floresta adentro. Era ele um homem, e eu, híbrida. Que tipo de reação verbal teria ele me vendo assim? O branco dos olhos alinhado no branco dos meus, quanto tempo demorou para tudo isso acontecer? Ele começou a se mover, mas não na minha direção. Andava lentamente para trás, se distanciando sem tirar os olhos de mim. Compreendi, com o coração batendo entre as costelas, que ele estava com medo e pretendia fugir. Deitei com a cabeça virada pro negrume sem estrelas, como quem está sossegada e não pretende atacar. Passei a língua nos dentes e me aliviei por não ter presas no lugar deles.  Os passos apressados dele se transformaram em corrida. Não chorei, também isso parecia ter desaprendido.
 
Deixei-o ir. Com a minha velocidade e a capacidade de sentir cheiros e rastros,  conseguiria facilmente encontrá-lo novamente. Não me importava o que isso poderia me custar. Recebi o medo com sentimento humano e desejei me vingar como um animal enfurecido, capaz de enxergar uma rejeição posteriormente e correr e chegar até onde ele moraria ou se esconderia. Esperei algumas arfadas para começar a marchar, sabia que poderia demorar até a mudança de cor do céu: eu veria tudo e todos me veriam, não sei se seria uma boa ideia… Mesmo assim, me pus de pé e comecei a trilhar através de cheiros e pisadas o lugar que detestei assim que vi: não era a nossa casa, não que eu saiba. Era muito próximo de onde nos encontramos, como se o chão atuasse a meu favor, permitindo que minha corrida atingisse o alvo em  um tempo  razoável. Contudo, me dei conta de que poderia estar subestimando minha velocidade, acreditando tão gratuitamente que haveria algo de sobrenatural naquilo.
Nesse lugar, alguém da mesma espécie que aquele homem, uma mulher, bem diferente de mim - coxas, pés leitosos, demasiadas aberturas etc - esperava por ele confortavelmente, dormindo em sono profundo. Estava, aliás, num quarto que jamais seria meu: você sabe que eu detesto rosa e branco. O cheiro é de sândalo, terrivelmente recebido por mim, sentia-me asfixiada. As luzes fracas porém muito eficientes comparadas à escuridão de lá me permitem reconhecer praticamente toda a casa de apenas um andar, fácil demais para se invadir. Não me surpreendi quando o vi entrar pelo quarto, silencioso, em câmera lenta, para não acordar a outra que dormia tão avermelhada no travesseiro ridículo. A cegueira do ciúme transbordava de mim, tão rápida quanto minha corrida. Sentia-me livre para cometer qualquer atrocidade.
 
Esgueirada na janela esquecida aberta - convidativa - do outro cômodo vazio, perdi todas as faculdades de justiça humana e controle de emoções. Saltei sem medo do ruído que faria, certa de que ninguém conseguiria escapar inteiro dali. Estava ela dormindo e ele quase quando irrompi pela porta decorada com uma plaquinha "aqui dorme um casal feliz". Despedacei primeiro ele, depois ela. Não os comi, não mesmo. O que sobrou de cada levei comigo e arremessei aleatoriamente pelo caminho. Que tipo de cruza me deixaria daquele jeito, tão forte, tão veloz e tão irracional? Tão eu mesma!

“speak to me in a language I can hear.”

Sem nunca me cansar. Sem sede. Sem sapatos, as pedrinhas e gravetos não me agrediam a outra pele dos pés nus. Os pés branquinhos e as unhas quadradas cor 5th Avenue deram lugar a outro tipo de membros. Um casco, talvez. Não percebi exatamente minha própria anatomia, sentia-me apenas sob forma de algo não humano, de conjuntura totalmente híbrida. Não parei para me analisar, apenas usufruí das faculdades sem receio. Saltava distâncias impensáveis, farejava todos os cheiros de uma só vez, ouvia como de perto peitos respirando alto a quilômetros de distância. Não era pássaro, pois não senti asas. Não era lobo, pois não uivei. Intimamente, me sentia mais humana do que nunca. Minha comunicação era minha própria língua materna, só não tive, até o momento, oportunidade de usá-la. Pensava, questionava, mas tudo tão flutuante e desnecessário! Correr era necessário, falar não. Palavras me ocorreram e nunca viraram música: todas desaprendidas.

De longe, sentia que me aguardavam a alguns quilômetros dali, ainda que não tenha escutado meu nome, que pronúncia teria? Aposto que saberia se ouvisse. Nada até agora.Os olhos vezes quatro percebiam a vegetação densa e úmida, claustrofóbica e enegrecida, como se a noite viesse de baixo para cima. O céu permanecia estático na sua coloração tripartida padrão, tudo isso eu percebia enquanto corria sem me cansar.

Diminuo a velocidade conforme os cheiros se tornam mais quentes, a distância era temperatura para mim. Com efeito, percebo que distância era tempo e o céu enegreceu de vez, como nunca tive oportunidade de construir antes.Tolhida de me consolar com a visão, a mais necessária e traiçoeira dos sentidos, tinha os ouvidos como maiores aliados, tão mais eficientes quanto o par de super olhos. Andando com rapidez, porém sem saltar ou correr na velocidade de um carro, fui entrando cada vez mais na floresta que parecia secar e fazer minhas pisadas parecerem mastigadas de folhas secas, num croc irritante e contínuo. O ruído me confundia, alto e rasgante, meus passos pareciam outros e frequentemente olhei para trás. Nada. Eu devia estar aliviada por estar sozinha e não ter visto coisa alguma ao me virar para trás, mas não. Conforme percebia que minha locomoção não me levava até os outros, ficava cada vez mais sem esperanças de ficar imune ao medo.

 

Não sei calcular quanto tempo isso durou, mas assim que atingi o máximo de horror que alguém - ou alguma coisa, no meu caso - pode suportar, ganhei uma companhia.

 

(…)

O que me toca não é nos ombros.

Todos estão dormindo, exceto eu.  O colchão de molas denuncia cada tentativa vã de encontrar uma posição confortável: range, pia e irrita como nunca.

A pior coisa que eu fiz foi concordar em passar a noite aqui, sei que acordarei com torcicolo etc.

 

[temperatura ideal, pés relaxados, REM.REM. Dez minutos mais. REM.]

 

Eu estava nessas preocupações que prorrogam o sono quando me dei conta, rapidamente, de que já me encontrava em estado de insensibilidade a estímulos exteriores e estava, inclusive, sonhando que estava dormindo.Ciente de que era um sonho dentro de outro, consegui sentir meus travesseiros a 15 quilômetros de distância, a vontade de estar na minha própria cama era tanta que acabei espectralmente dormindo nela. As cortinas roçavam uma na outra de vez em quando, o vento que vinha lá de fora não é o gelado de cá, sempre acompanhado de uma neblina no melhor estilo dos desenhos animados: mãos de fumaça branca te chamando para ir lá fora. Não descrevo desse modo porque me via fora do corpo, todo mundo sabe que nos sonhos se vê com tudo, menos com os olhos.

Permaneci no plano do delírio para saber do que se tratava, para isso, precisava despertar.Comecei toda a movimentação muscular para perceber as novidades e imediatamente senti fisgadas hercúleas nas pernas, pareciam estar dobradas, como fez o contorcionista do show de variedades: dobrou a si mesmo e foi para Budapeste dentro de uma mala.

Após estalar articulações e animar cartilagens, senti-me pronta para abrir os olhos. Foi a experiência mais estranha que já tive, pois a impressão era de possuir olhos cinco vezes maiores. A minha surpresa foi maior quando me dei conta de que enxergava muito bem,  muito mais do que poderia imaginar. As cores e formas eram belíssimas e não tinham a confusão sobranceira típica desse estado: lembro perfeitamente de ver  o céu pela janela, que tem sempre as mesmas nuances quando meus sonhos são dirigidos: roxo, laranja e vermelho.

 A minha preocupação passou a configurar o que parecia uma armadilha:eu não estava na minha cama e tampouco no meu quarto. Como nos filmes chatos, um forward caiu muito bem e logo pude sentir cheiros e ouvir sons. As dores que senti eram fruto da posição incômoda na qual adormeci e meu leito era uma árvore oca, vazia, com cheiro de madeira apodrecida e úmida. A parte de cima parecia ter sido amputada e vi o mesmo céu da janela, como uma clarabóia improvisada. Quis sair e estava presa ali, pelo menos era o que parecia. Abaixei com joelhos bem dobrados e saltei, como um bicho pulando uma cerca. O impulso de uma vez só me fez começar a correr sem saber para onde: animalizada no meio da floresta, com um silêncio de  matar. Corria e sentia o coração bombeando sangue com fúria para todos os órgãos, sem nunca me cansar. Assim que percebi presença de outras pessoas - ou assim pensei que fossem - diminuí a velocidade gradativamente, farejando os vultos e torcendo para reconhecer algum deles.

Estavam consideravelmente distantes de mim. Que fazia minha audição comigo? Por que pareciam estar tão perto? Ouvi sussurros e conversas cruzadas tão perto… voltei a correr, num tropel furioso. 

 

(…)

 

Resetando a paixão em…

…9, 8, 7, o resto vocês já conhecem.

 

 

 Sempre se viam. Ainda assim, nunca se falavam. Ele olhava de cima e vigiava uma beleza que nunca decresceu, assim como Eliseu, meu amigo de escritório, que todo dia parava na janela do 14o andar com um binóculo infantil para apreciar a passagem de uma vendedora de  loja de sapatos, na rua da quitanda. A moça foi vista por ele pela primeira vez na hora do almoço, numa terça-feira amorfa, sem vento e estéril. O diabo é que Eliseu nunca soube dizer quando começou perseguir diariamente a desconhecida, os meses escorreram junto com o suor dele : as manchas na camisa triplicavam de tamanho. Um dia, fingiu estarinteressado em um tênis, se aproximou da vitrine mas não conseguiu ir adiante. Graças à timidez de Eliseu, a moça nunca desconfiou da existência do homem.
 Até que chegou o dia em que a mocinha não mais saiu para almoçar e Eliseu pôde constatar, depois da 3a ou 4a vez, que a anônima-íntima poderia não mais trabalhar naquelas imediações. Cogitou possíveis férias, licença médica, mas a ausência se prolongou demais para confortar o meu colega. Àquela altura, já não ia mais pro escritório a trabalho, era uma desculpa inconfessável para um cara solteiro, que resolveu se permitir uma taquicardia depois dos setecentos gramas de comida do restaurante a quilo, de segunda a sexta.
Isso ele me confessou anos depois, após uma confraternização da empresa regada à muita cerveja alemã. Não era uma novidade para mim, o escritório inteiro tinha reparado no comportamento que se repetia com hora marcada. Contudo, ele não me contou  rindo de si mesmo, tinha um tom grave, com uma coordenação mental extraordinária para alguém tão alcoolizado. Eu, que sou insensível pra burro, fiquei com vontade de dar um abraço no Eliseu, que estava quase chorando quando terminou de me contar. Projetou os lábios inferiores para encerrar o assunto e a história: "E aí, meu amigo, foi isso, nunca mais vi aquela moreninha."
Pensei no Eliseu hoje, porque a história dele terminou enquanto outra semelhante acontecia. Talvez ocorria ao mesmo tempo, os dois se viam, dia e noite, um ciente do outro. Não se cumprimentavam, apesar da familiaridade, eram tão próximos e tão distantes quanto Eliseu e sua moreninha, com um adendo importantíssimo: um sabia do outro, diferente do meu colega, que era uma via de mão única. E eis que hoje, no segundo dia do sétimo mês de 2011, testemunho - imprensado no coletivo que cruza o município até meu local de trabalho - um beijo apaixonado que parecia esperar pela oportunidade desde a Criação. Não fui o único a testemunhar o encontro , todos no ônibus também foram espectadores de pescoços e crânios projetados, uniformemente, para o mais novo casal, mas apenas assistiam àquilo. Eu sabia do que se tratava ou pelo menos assim queria crer, pois gosto de pensar que sou único a perceber coisas imperceptíveis. Hoje foi o dia em que o céu resolveu se abaixar até a baía de Guanabara, depois de anos à distância observando o verde-sujo. Tomou coragem e desceu, totalmente despreocupado se estavam olhando ou tirando fotos com seus modernos aparelhos. Não havia horizonte e os navios, barcos e plataformas foram engolidos pelas nuvens algodoadas, que pairavam por cima das águas gentilmente, dando um tom de sonho ao dia atarefado e comum que acabava de começar. Esse foi o dia em que presenciei um encontro impensável, o que vocês chamam de neblina, aquilo que o jornal noticiou como motivo do fechamento dos aeroportos era visualmente uma cópula de firmamento e água imunda. Assim me pareceu, sentado à direita, na janela, do alto do vão central da ponte. Tivesse feito isso há muitos anos, encontraria ele uma baía límpida, sem o cheiro de óleo. Um amor sujo, pensei.

 Para mim, foi o Eliseu às avessas.

venha ver baby the rain must fall…

- Negro rastafari, 30 anos, porte atlético…veio devagarinho de carro, parou e saiu.

- Sozinho?

- Quê?

- Ele tava sozinho?

- E interessa? O cara estava de cara mansa, vestido com abrigo de moletom, usando tênis de corrida. Muito bem. Subiu no parapeito, fez pose de mergulhador profissional e saltou em tripla cambalhota, desavisado que lá embaixo não há baía alguma, a água recuou tão rápido que, bem… o rapaz virou um nó de tripas humanas, totalmente desconchavado.

- Ai, já te falaram para colocar chinelos em forma de cruz debaixo da cama?

 

 

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- Estrada F.?

 - Não, cheia de curvas e escura, parecida, mas não a F. Uma van branca, dirigida por um padre, quase me atropelou. O idiota veio na contramão em alta velocidade.

- Tava bêbado?

- Não. Tinha passado de onde ficaria de fato, ir até o fim da estrada para fazer o  retorno implicava em uma subida cada vez mais íngreme, não muito aprazível. Para ganhar tempo e poupar combustível, valia até atropelar uma pobre diaba como eu. Mas ele saiu do carro, não se desculpou e, sem pressa, tocou a campainha de um grande portão branco e azul, onde a mulher que abriu parecia estar esperando ou adivinhando a chegada, presumo que o barulho da freada e o palavrão que me escapou deixaram-na em alerta. Ela abre e mal o cumprimenta, vem até mim rapidamente, bufando, e diz, entredentes, parecendo sofrer de tétano: " Eu, se você fosse você, arrebentava esse carro dele!"

- E você obedeceu?

-Não, voltei andando para casa. Fui deitar e acordei pouco depois com um intruso, verde-escuro e cheio de espuma.

- Mar entrando no seu quarto de novo?

-Não. Estava na vista lá de baixo, no lugar do asfalto. E tudo que eu conseguia alcançar com o olho era água.

 

 

 

Acordei sabe pra quê? Pra esse infeliz me dar um troco de vinte e sete moedas de cinco centavos.

“E mais não disse. Eu, X, lavrei e assino”


No primeiro dia, me estranhou. Algumas vodcas depois, falava tanto meu nome que parecia querer me invocar.

Na semana seguinte, estava já em processo de séria mudança de idéia. Pobrezinho.

Ao cabo de três meses, estava mortalmente dependente de mim.

Em nove anos, adquiriu peso, pesava arrobas quando foi levado para o hospital psiquiátrico após um colapso nervoso, exatamente a uma semana do meu casamento. Casei com a culpa montada em mim, pesada como ele. A lua-de-mel foi assombrada pela voz daquele morto, a loucura também é uma morte, assim pensei. A voz ao telefone, despedaçada, um encontro comigo, segundo andar do shopping tal, esses lugares insólitos e inadequados para um encontro como esse. Neguei sem esforço, mas me comovi com a internação. Com o esquecimento. Morreu nos braços da enfermeira, dezoito meses depois; por desleixo, a de branco não percebeu o afiado alicate de unha afanado do armarinho. Muitas perfurações na jugular, hemorragia intensa, incompetência de funcionários e uma ex-obesidade então anemia mataram o rapaz de 29 anos.

(Desculpe, me distraí com o ipê amarelo daquela casa da vila, olha só, que beleza…)

 

No primeiro dia, me ignorou. Algumas vodcas depois, nem se dirigia a mim, só falava sobre mídias sociais e adjacências.

Na semana seguinte, estava sapecando uns "segredos de liquidificador" na orelha de uma mocinha frágil, de quadris estreitos e pouco seio.

Ao cabo de três meses, a mocinha embarrigou, e ele, vadio e sem um tostão no bolso, sumiu.

 

Não nos consolamos.